sexta-feira, 22 de maio de 2009

Matiza


Já não se conseguia lembrar do dono, mas esperava-o. Esperava-o incansavelmente, junto ao Caminho. A estratégia era simples: deitava-se junto do caminho entre as ervas, descansada, falsamente descansada; cada vez que um peregrino se assomava no caminho, levantava-se, saltava para o caminho, fingia ignorar os caminheiros e avançava na direcção da fonte de quatro bicas; deixar-se-ia alcançar, o que não era difícil, devido às suas patas curtas.



Cada dia era igual a cada dia, cada fim de dia uma pequena desilusão recheada de esperança no dia seguinte. À noite, recolhia-se num dos cabanos da aldeia das Quatro Bicas. O dia seguinte seria... o dia seguinte.


Estava nestes preparos e disposições, relaxada, falsamente relaxada, entre as ervas fingindo ignorar o caminho, sem apartar os olhos mais que breves instantes. O dia estava frio e húmido, cheirava a chuva, a frio. As ervas teimavam em tocar-lhe o focinho e as gotícolas em escorrer-lhe pelo pelo, deixando uma impressão desconfortável. Não podia desistir. O dono viria certamente buscá-la. Nunca o largara, nem mesmo quando decidiu fazer este caminho que nunca mais acabava. Só parou para beber um pouco e deixou de o ver, para sempre. Para sempre, não. Até agora...


Mais uma vez um grupo se aproximou. Ele viria entre eles? Terá vindo buscá-la ou só para fazer o Caminho? Começou a rotina de avançar à sua frente, de olhar para trás de soslaio, de se deixar alcançar. Não lhe importava porque ele tinha vindo. O importante é que a não voltaria a deixar para trás. Seria o rapaz alto? Aquele senhor gordo e com alguma dificuldade em andar? O velhote com porte atlético e sorriso franco?


O rapaz alto! Sim, ele chamou-a "Linda!", "fofinha", "estás sozinha?", "pobre!" Acariciou-a longamente, pegou-lhe no queixo, mimou-a muito. Sentou-se junto à fonte das quatro bicas e tirou um pão com queijo. Partilhou com ela. Ela estava deliciada. Se fosse mais nova saltitaria à sua volta, correria em alegre doideira, para a frente e para trás. Mas não, bastava-lhe contemplá-lo e imaginar as brincadeiras de que não se lembrava. A sua cauda, varria o cascalho para a direita e para a esquerda, sem nunca tirar os olhos do rapaz. Como podia tê-lo esquecido? Ainda bem que esperara.


Entretanto a velha gorda veio à fonte como faz sempre que um peregrino pára, para comer ou refrescar-se. Começou a cumprimentar o grupo e foi metendo conversa:

- A Santiago, non? Dios les bendiga. Lleven mis ruegos al Apostol, que le tiengo mucha fé!

Sem muito tempo de reacção, todo o grupo sorriu de volta. Ela voltou:

- De donde sois?

Eles lá conseguiram responder, mas ela continuou:

- Esta pobre (apontando para a cadela) se quedó en el camino hace un par de años!


Eles sorriram e estranhamente o rapaz não a esclareceu que era sua. Ainda olhou cada um dos restantes membros do grupo com esperança, mas nada. Mais uma falsa esperança. Deitou-se no cascalho, apoiando o focinho nas patas dianteiras e suspirou. Assim que partissem, voltaria às ervas, ao seu posto de vigia. Ele não tardaria a vir buscá-la.


Lá ficou, entre as ervas vigiando o caminho, com disfarçada displicência. O frio ia-lhe tomando os ossos. Como todos os dias, custava-lhe tomar a decisão de ir abrigar-se e abandonar a vigilância. Nestes pensamentos, foi adormecendo, hesitante.


De repente, ouviu:

"Matiza! Anda! Sua doida!"

Era ele! Aquele queixo, as mãos nodosas. A camisola azul, mas estava rota, ensanguentada. Arrebitou as orelhas e de um salto lambeu-lhe a cara e as mãos. Apeteceu-lhe perguntar porque tivera que esperar tanto, mas ele não entenderia...

Mas entendeu e respondeu-lhe:
"Há dois anos que eu espero por ti, doida. Linda Matiza. Não quis entrar no paraíso sem ti, companheira".

Sem medo algum, tudo pareceu natural a Matiza enquanto seguia o dono para a Luz...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Realidade

Sempre que se cansava de ler ou simplesmente olhar para a lareira, ficava a fitá-la. Ela raramente lhe devolvia o olhar, mas quando o fazia valia por todas as vezes em que o seu olhar não lhe concedia encontro. Habituara-se a ler e àquela calma, desde que a encontrara. Os dias eram mais claros e serenos desde então. Ele lia, ela também ou bordava, ou se entregava a uma outra manualidade.
Ao olhá-la podia estar a desejar que ela lhe tocasse, ou simplesmente a regalar-se na sua presença. Ocasionalmente ela sorria-lhe, lembrando-lhe todas as intimidadades trocadas, todos os segredos soprados junto ao seu ouvido, todas as banalidades que eram só suas.
Sentia que ela lhe pertencia apenas a ele. Nunca se dirigia a mais ninguém, nem mesmo aos outros habitantes da casa.
Um mordomo com farda estranha entra, saúda e deixa-lhe alguns medicamentos. Ela não o olha, ignora-o. É só sua. Mesmo ele tem dificuldade em retirar os olhos dela para cumprimentar ou agradecer ao mordomo. Parecia que o incomodava perder alguns instantes daquela intimidade de silêncios e calmas. Ao fazê-lo mantém-se fito nela, enquanto ela borda ou descansa os olhos na lareira.
Como podia ter vivido antes de a conhecer? Como a conhecera? Há quanto tempo? Parecia que nunca existira antes de ela.
Às vezes, não resistia, saia da sua cadeira e ia encostar a barriga ao espaldar da cadeira dela. Raramente ela correspondia reclinando a cabeça até tocá-lo, roçando o carrapito impecável na sua camisola e deliciando-o com o toque. Por vezes mesmo, parecia incomodada ou incerta de o querer ali.
O que os unia era lago que ultrapassava as explicações ou descrições, como se as palavras e a lógica não os obrigassem, não os tolhessem. Roçagar de asas que libertava os pesos dos seus corpos e dos seus seres.
Passavam os dias naquela contemplação, sem mesmo a ansiedade do voltar à cama para se tocarem realmente. A existência satisfazia-os mutuamente. Eram uma realidade, apenas.
Quando o mordomo se demorava mais um pouco a contemplar o mobiliário decadente, as suas atenções desapareciam dele e voltavam a mergulhar um no outro, sem palavras, nem grandes eloquências ou actos.
Por vezes, ele perturbava-se pela ausência do tempo, mas bastava-lhe olhá-la para não sentir qualquer necessidade. Eram, simplesmente.
Volta e meia, o mordomo trazia um médico, o que o irritava profundamente. Que mania de querer cuidar dos outros. Ele estavam melhor do que alguma vez imaginara. Era jovem e robusto, apaixonado. Pode lá haver melhor saúde? Nessas ocasiões, optara por ignorá-los a ambos. Se se demoravam, sacudia-os e expulsava-os da sala.
Com o passar do tempo, a simples presença começou a não bastar. Queria lembrar-se da textura da pele dela, do ténue calor, do seu hálito, do toque dos lábios contra os seus. Isto começou a agitá-lo. Cada vez que ela não lhe retribuía o olhar começava a ansiar, a sentir-se só. Procurava o seu toque, mas raramente o encontrava. Sentia-se como um cão a quem já não se liga muito, por ser velho ou sujo.
Conforme este sentimento se foi instalando, começou a sentir-se inquieto. Já não havia momentos de contemplação, nem de cumplicidade. Uma pequena raiva foi crescendo, dilatando. Queria estar com ela e relembrar tudo, mas não conseguia. Parecia que se estava a abrir um fosso para o engolir.
De um salto decidiu agarrá-la e forçá-la se preciso fosse. Ela deixou-se agarrar, sem reacção. Não era isto que pretendia. Como podia ignorá-lo durante um abraço forte e sexuado. Procurou-lhe a boca e encontrou frio. O mesmo em toda a sua presença.
Perdeu-se de raiva e atirou-a para longe. Ela pareceu flutuar sem perder a verticalidade, indiferente. A raiva tomou-o e começou a despejá-la nos móveis, até que não se conteve e a agrediu, lançando-lhe todos os objectos que lhe viessem à mão. Ela permaneceu imóvel.
...
O mordomo entrou e tentou refreá-lo. Em vão. Foi lançado como um candeeiro de pé ou uma mesa de apoio. O médico estava lá e correu para lhe injectar algo no braço. Ainda conseguiu repeli-lo, mas um torpor instalou-se nos músculos, depois na vista, por fim, por tudo.
- Há quanto tempo não tinha um acesso de fúria, perguntou o médico.
- Há duas semanas, quando começamos o tratamento novo, respondeu.
...
As palavras ecoavam na sua cabeça encostada ao espaldar achado da cadeira...
...
- Temos que voltar à medicação anterior. Já se habituou a esta e não podemos aumentar a dose, sem o estudo de efeitos secundários, discorreu o médico - Era a última esperança de recuperação.
- Sr. Dr., nunca tivemos qualquer indício de recuperação. Apenas passou do quadro agressivo para um de apatia. Foi buscar uma segunda cadeira ao refeitório e ficava a olhar para ela.

Inspirado nas primeiras linhas de "Morella" de Edgar Alan Poe.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Solene


Um homem esperava a missa. Como tantos outros, sentava-se às meias-horas, esperando e gozando aquele tempo de silêncios, acenadelas cúmplices, vizinhanças costumeiras. O que mais apreciava era que o reconhecessem. Tinha a sensação de que todos o respeitavam, mesmo com reverência. Era um homem respeitado, com um daqueles respeitos intocáveis.
Entre rezas e laivos de orgulho, sentiu uma repentina cólica. Todo o intestino se revolveu, contorceu, retorceu. Sabia que não chegaria a tempo a lado nenhum, mas tinha que sair dali, já. Hesitou, tomando decisões sobre decisões - pela porta travessa, pela do fundo, em direcção ao monte, a casa...
Deu um salto, para sair dali antes do desastre, mas o esforço traiu-o. Soltou um ruidoso, odorífero, pestilento gás.
Havia comido lentilhas.
Quando o padre chegou, a igreja estava estranhamente vazia...
...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Quarto

Ele beijava-a enquanto abriam a porta. Depois do beijo, desviaram a cara, sem afastar a cintura, para a valiar o quarto.

Pinturas a fresco no tecto e paredes, tapetes, camam com roupa branca...

A luxúria não queria espera.

O quarto olhou-os, triste e resignado. Sempre o mesmo baile, corpos iguais, caras diferentes.

Nenhum deles reparou nas núvens pintadas nas paredes, no sol à volta do candeeiro, no pequeno balão que fugia à menina, junto à janela.

Quando finalmente apagavam a luz, esperava um pouco pelo silêncio.

Agora podia recordar a Inês, de olhos arregalados a descobrir o quarto renovado, cada pormenor das pinturas, cada folho das cortinas floridas, da colcha de algodão, das folhas que rodeavam a lâmpada do candeeiro.

O quarto idolatrara aquela menina de olhos verdes, tranças verdes e sardas.

O pai médico protegia-a, cobria-a de mimos e carícias. dada dia , um doce; cada semana um brinquedo novo; aulas de piano e lavores.

Como o tempo passa...

Inês deve estar sentada, nos seus cinquenta anos, de beata a queimar-lhe os lábios, olhos verdes semicerrados pelo fumo.

O dinheiro dos pais não durara para sempre.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Estranhos Frutos


Um certo jovem plantou uma árvore. Tinha apenas três folhas.

Aconchegou-lhe a terra com as mãos, porque as plantas agradecem os mimos. Retirou os galhos que se lhe iam atravessando nos mimos, que fazia à terra. Para terminar, regou-a e sentou-se no chão a olhá-la, tão pequena, tão frágil. Ninguém diria que poderia ser árvore.

Passando um homem, viu-o tão atento e disse-lhe:

- Com esta seca e este calor, nunca pegará!

O jovem não o olhou, não reagiu. Para dentro, o jovem gritava "há-de ser uma árvore grande e forte."

Vigilante, cada dia trazia um pouco de água e os carinhos necessários. A seca e o calor passaram, vieram a chuva e os ventos. O jovem continuava a vigiar e ajudar a árvore potencial.

As estações foram passando, e os cuidados cada vez ficaram mais desnecessários. Nem por isso a ligação do jovem à planta diminuiu.

No entanto, a vida ia-os afastando e carregando o jovem/homem de novas responsabilidades e ocupações.

A cada estação, ano, década, a certeza do jovem ia-se confirmando. Nunca seria, provavelmente, importante para ninguém senão para ele - não dava fruto, nem frondosas folhas.

Poderia sempre orgulhar-se dos ramos fortes e grossos. Como se esticasse as raízes para o céu, como uma mão que tenta agarrar as núvens.

Mais anos, décadas se passaram e a árvore lá estava, agarrada à terra e ao céu, como se tivesse um plano engendrado.

Certo dia, o jovem - já velho - visitou a "sua" árvore, para lhe dizer que já teria tempo para a visitar todos os dias.

Assim foi. No dia seguinte lá foi.

A árvore tinha agarrado uma núvem: formava a sua copa e descia quase até ao chão.

Aproximou-se a tentar adivinhar-lhe os ramos, quando teve que saltar para trás. Da núvem saiam uns pés.

Deixaria de ser a sua árvore: passariam a chamar-lhe a Árvore do Enforcado.

A "sua" árvore havia adoptado outro...