segunda-feira, 4 de maio de 2009

Solene


Um homem esperava a missa. Como tantos outros, sentava-se às meias-horas, esperando e gozando aquele tempo de silêncios, acenadelas cúmplices, vizinhanças costumeiras. O que mais apreciava era que o reconhecessem. Tinha a sensação de que todos o respeitavam, mesmo com reverência. Era um homem respeitado, com um daqueles respeitos intocáveis.
Entre rezas e laivos de orgulho, sentiu uma repentina cólica. Todo o intestino se revolveu, contorceu, retorceu. Sabia que não chegaria a tempo a lado nenhum, mas tinha que sair dali, já. Hesitou, tomando decisões sobre decisões - pela porta travessa, pela do fundo, em direcção ao monte, a casa...
Deu um salto, para sair dali antes do desastre, mas o esforço traiu-o. Soltou um ruidoso, odorífero, pestilento gás.
Havia comido lentilhas.
Quando o padre chegou, a igreja estava estranhamente vazia...
...

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