sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Quarto

Ele beijava-a enquanto abriam a porta. Depois do beijo, desviaram a cara, sem afastar a cintura, para a valiar o quarto.

Pinturas a fresco no tecto e paredes, tapetes, camam com roupa branca...

A luxúria não queria espera.

O quarto olhou-os, triste e resignado. Sempre o mesmo baile, corpos iguais, caras diferentes.

Nenhum deles reparou nas núvens pintadas nas paredes, no sol à volta do candeeiro, no pequeno balão que fugia à menina, junto à janela.

Quando finalmente apagavam a luz, esperava um pouco pelo silêncio.

Agora podia recordar a Inês, de olhos arregalados a descobrir o quarto renovado, cada pormenor das pinturas, cada folho das cortinas floridas, da colcha de algodão, das folhas que rodeavam a lâmpada do candeeiro.

O quarto idolatrara aquela menina de olhos verdes, tranças verdes e sardas.

O pai médico protegia-a, cobria-a de mimos e carícias. dada dia , um doce; cada semana um brinquedo novo; aulas de piano e lavores.

Como o tempo passa...

Inês deve estar sentada, nos seus cinquenta anos, de beata a queimar-lhe os lábios, olhos verdes semicerrados pelo fumo.

O dinheiro dos pais não durara para sempre.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Estranhos Frutos


Um certo jovem plantou uma árvore. Tinha apenas três folhas.

Aconchegou-lhe a terra com as mãos, porque as plantas agradecem os mimos. Retirou os galhos que se lhe iam atravessando nos mimos, que fazia à terra. Para terminar, regou-a e sentou-se no chão a olhá-la, tão pequena, tão frágil. Ninguém diria que poderia ser árvore.

Passando um homem, viu-o tão atento e disse-lhe:

- Com esta seca e este calor, nunca pegará!

O jovem não o olhou, não reagiu. Para dentro, o jovem gritava "há-de ser uma árvore grande e forte."

Vigilante, cada dia trazia um pouco de água e os carinhos necessários. A seca e o calor passaram, vieram a chuva e os ventos. O jovem continuava a vigiar e ajudar a árvore potencial.

As estações foram passando, e os cuidados cada vez ficaram mais desnecessários. Nem por isso a ligação do jovem à planta diminuiu.

No entanto, a vida ia-os afastando e carregando o jovem/homem de novas responsabilidades e ocupações.

A cada estação, ano, década, a certeza do jovem ia-se confirmando. Nunca seria, provavelmente, importante para ninguém senão para ele - não dava fruto, nem frondosas folhas.

Poderia sempre orgulhar-se dos ramos fortes e grossos. Como se esticasse as raízes para o céu, como uma mão que tenta agarrar as núvens.

Mais anos, décadas se passaram e a árvore lá estava, agarrada à terra e ao céu, como se tivesse um plano engendrado.

Certo dia, o jovem - já velho - visitou a "sua" árvore, para lhe dizer que já teria tempo para a visitar todos os dias.

Assim foi. No dia seguinte lá foi.

A árvore tinha agarrado uma núvem: formava a sua copa e descia quase até ao chão.

Aproximou-se a tentar adivinhar-lhe os ramos, quando teve que saltar para trás. Da núvem saiam uns pés.

Deixaria de ser a sua árvore: passariam a chamar-lhe a Árvore do Enforcado.

A "sua" árvore havia adoptado outro...