
Estremunhado, olha à volta. Abotoa os dois botões do casaco azul escuro, sacode as perneiras das calças e observa o painel luminoso à frente do banco onde se anunciam voos para uma panóplia de destinos.
Decide levantar-se e vai à casa de banho, para se refrescar e barbear cuidadosamente. Recupera o seu ar de executivo, com um cuidadoso risco no cabelo.
Confirma que o 'trolley' se mantém a seu lado, onde guarda a máquina de barbear e o pente, assim como a pasta dos dentes esquecida no lavatório.
A camisa continua impecavelmente branca e devidamente alisada.
Ao aproximar-se do bar mais próximo, a 'barmaid' sorri cúmplice e serve-lhe um café com leite e um croissant simples.
Cumprimenta-a com um aceno de cabeça e senta-se num sofá a comer e a folhear o jornal diário.
Passado pouco, segue para a saída do aeroporto e embrenha-se na cidade sonolenta e parda. A cidade aceita-o tão nobre como sempre, no passo decidido, optando sempre por caminhar, independentemente das distâncias.
Após umas horas de caminhada, chega ao 'snack-bar' preferido, onde come uma sopa e o prato do dia. No final, "um cafezinho e uma água, por favor!"
Olhar para o porto de mar ocupa-lhe cerca de duas horas, em que faz render a "água
, por favor!"
O 'ferry' já está pronto e parte para o seu destino. Chega um petroleiro, que , pelo estado, veio para ser desmantelado. O paquete só zarpa amanhã, mas a tripulação já está atarefada. Faz o registo de todos estes movimentos do porto.
O caderno de capa gasta já perdeu a cor de chumbo e optou por um cinza mais leve. Está quase cheio e terá que o trocar em breve.
Terminados os registos, levanta-se e começa a sua longa caminhada. A cidade já não o aceita tão bem a esta hora. O seu porte, o traje e o passo decidido não o protegem dos jovens cheios de arruaça cervejeira. Cada vez mais jovens e imprevisíveis.
Opta por um caminho mais longo, sempre a pé. Segue evitando encontros indesejados.
Ao longe, vislumbra o brilho projectado nas nuvens. Está perto de casa.
O passo vai-se tornando cada vez menos tenso e orgulhoso. Observa o fato que continua impecável, à excepção do botão de baixo do casaco, que começa a ficar afiado e arrisca magoá-lo ou danificar o casaco.
O passo já vai temeroso, por não saber quem estará de guarda. Alguns seguranças pedem-lhe a identificação, apesar de o conhecerem perfeitamente. À hora a que chega nunca têm o que fazer.
Hoje está um negro alto e com uma barriga volumosa, que o cumprimenta, simulando tirar o chapéu.
Devolve o cumprimento, sorrindo.
O aeroporto prepara-se para dormir. João António, o vagabundo, olha-o ansioso e sorri quando lhe dá a sandes de fiambre que trouxe do 'snack-bar'.
Sem mais, segue para a casa de banho, onde lava os dentes e inspecciona a camisa, a precisar de mudança. Amanhã trocará. Senta-se no banco do costume e espera adormecer.