segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Passageiro


Estremunhado, olha à volta. Abotoa os dois botões do casaco azul escuro, sacode as perneiras das calças e observa o painel luminoso à frente do banco onde se anunciam voos para uma panóplia de destinos.
Decide levantar-se e vai à casa de banho, para se refrescar e barbear cuidadosamente. Recupera o seu ar de executivo, com um cuidadoso risco no cabelo.
Confirma que o 'trolley' se mantém a seu lado, onde guarda a máquina de barbear e o pente, assim como a pasta dos dentes esquecida no lavatório.
A camisa continua impecavelmente branca e devidamente alisada.
Ao aproximar-se do bar mais próximo, a 'barmaid' sorri cúmplice e serve-lhe um café com leite e um croissant simples.
Cumprimenta-a com um aceno de cabeça e senta-se num sofá a comer e a folhear o jornal diário.
Passado pouco, segue para a saída do aeroporto e embrenha-se na cidade sonolenta e parda. A cidade aceita-o tão nobre como sempre, no passo decidido, optando sempre por caminhar, independentemente das distâncias.
Após umas horas de caminhada, chega ao 'snack-bar' preferido, onde come uma sopa e o prato do dia. No final, "um cafezinho e uma água, por favor!"
Olhar para o porto de mar ocupa-lhe cerca de duas horas, em que faz render a "água
, por favor!"
O 'ferry' já está pronto e parte para o seu destino. Chega um petroleiro, que , pelo estado, veio para ser desmantelado. O paquete só zarpa amanhã, mas a tripulação já está atarefada. Faz o registo de todos estes movimentos do porto.
O caderno de capa gasta já perdeu a cor de chumbo e optou por um cinza mais leve. Está quase cheio e terá que o trocar em breve.
Terminados os registos, levanta-se e começa a sua longa caminhada. A cidade já não o aceita tão bem a esta hora. O seu porte, o traje e o passo decidido não o protegem dos jovens cheios de arruaça cervejeira. Cada vez mais jovens e imprevisíveis.
Opta por um caminho mais longo, sempre a pé. Segue evitando encontros indesejados.
Ao longe, vislumbra o brilho projectado nas nuvens. Está perto de casa.
O passo vai-se tornando cada vez menos tenso e orgulhoso. Observa o fato que continua impecável, à excepção do botão de baixo do casaco, que começa a ficar afiado e arrisca magoá-lo ou danificar o casaco.
O passo já vai temeroso, por não saber quem estará de guarda. Alguns seguranças pedem-lhe a identificação, apesar de o conhecerem perfeitamente. À hora a que chega nunca têm o que fazer.
Hoje está um negro alto e com uma barriga volumosa, que o cumprimenta, simulando tirar o chapéu.
Devolve o cumprimento, sorrindo.
O aeroporto prepara-se para dormir. João António, o vagabundo, olha-o ansioso e sorri quando lhe dá a sandes de fiambre que trouxe do 'snack-bar'.
Sem mais, segue para a casa de banho, onde lava os dentes e inspecciona a camisa, a precisar de mudança. Amanhã trocará. Senta-se no banco do costume e espera adormecer.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A tábua



O miúdo gostava de pregar partidas e rir-se à conta dos outros. Quem não gosta, de vez em quando? No caso dele, não era de vez em quando. Não pensava noutra coisa, não fazia outra coisa.


O velho era um dos alvos preferidos, mas o que dava menos gozo. O velho só olhava, esticava os lábios e abanava a cabeça. Os outros reagiam mais, quer outros miúdos, quer graúdos.


Na verdade o miúdo não estava sempre a pregar partidas ou a gozar alguém. Metade do tempo passava-o a pedir desculpa e a garantir que o desculpavam. A mãe é que lhe tinha ensinado que se devia pedir desculpa.


Os dias e as semanas foram passando e o miúdo lá vivia entre partidas e desculpas. Aos poucos os outros miúdos e adultos foram-se afastando, porque as graçolas e as desculpas eram sempre as mesmas. A pouco e pouco foi ficando só.

Apenas o velho não resistia a ser vítima, esticava os lábios e meneava a cabeça, como sempre. Isolado nas graçolas ao velho, o miúdo foi ficando triste e acabrunhado. Já não fazia lembrar um cabrito novo.

Um dia resolveu falar ao velho. A princípio ele não lhe ligou, esperando a graçola. Como o miúdo continuasse a falar e a graçola não surgisse o velho acertou-lhe com os olhos nos olhos e abriu os ouvidos. O miúdo falava de estar só, de não ter graça, de desculpas e de estar só outra vez.

Ao adivinhar que finalmente era ouvido, o miúdo recobrou o entusiasmo e lá contou o que o atormentava. Sem dizer palavra, o velho afastou-se, seguido do miúdo. Perto de casa, o velho apanhou uma tábua do chão. Talvez para o lume, pensou o miúdo.

Ao chegar ao cabano da lenha, o velho não entrou. Seguiu para a oficina, onde pegou num prego e num martelo. O miúdo estava intrigado, apreensivo, entusiasmado...

Com susto, ouviu a voz do velho dizer "pega!", indicando os objectos. Cada vez mais curioso, o miúdo ficou mudo e pegou na tábua, no prego e no martelo. Não era costume deixarem-no mexer em ferramentas...

"Faz de conta que essa tábua é o teu melhor amigo", disse o velho. "Pensa numa partida que lhe pregaste e prega um prego. Se lhe pediste desculpa por isso, volta a tirar o prego. Depois faz o mesmo por cada partida que lhe pregaste."

O miúdo assim fez. foi pensando em cada graçola, cada partida, e pregando, e despregando. Passada uma boa hora, o miúdo procurou o velho porque precisava de uma outra tábua. Aquela estava em fanicos, toda desfeita como saída de um moínho.

O velho não pareceu surpreso. Ficou calado um pouco e o miúdo esperou. Quando finalmente perdeu a paciência, o miúdo perguntou se não lhe dava outra tábua. O velho disse apenas: "Não!" Como o miúdo coninuasse à espera de algo, completou:

- É sempre bom pedir desculpa quando erramos, mas as coisas nunca voltam ao mesmo. A tábua não ficou igual, quando tiraste o prego da primeira vez, mas parecia. Era coisa pouca, um furinho. Quando continuaste, foste fazendo tantos furinhos que havia mais furos do que tábua e a tábua deixou de ser tábua.

Com as pessoas, acontece o mesmo. São nossas amigas e vão aceitando um desgosto atrás do outro, mas de cada vez, a amizade vai-se transformando muito pouquinho. Quando os desgostos são já muitos, já não há amizade.


À minha amiga Rosa, que me contou esta história, enquanto eu ensinava o perdão.