Voltam a bater à porta, com mais violência.
Depois de perceber o espaço em que está, levanta-se pesadamente e vai atender. Um desconhecido engravatado, muito bem apresentado, mas a quem falta o sorriso de vendedor habitual. Inquietou-se.
Perante o seu olhar intrigado, o senhor esclarece:
- Sou da Funerária Avidense. Trago um corpo para depositar na Capela da N. S. de Fátima, mas os parentes ainda não chegaram e a capela está fechada.
Emília consultou o relógio - 9:43
- Eu já ia abrir. Costumo abrir às nove e meia, mas entretive-me nas minhas voltinhas. Uma mulher nunca para, sabe? A lida da casa nunca acaba...
Pegou na chave da capela e num casaco negro, inspecionou a blusa para ver se não teria nenhum toque de vermelhidão. Fechou a porta de casa atrás de si e acompanhou o cangalheiro.
- Sabe? O Sr. padre confia muito em mim. Só eu é que tenho a chave da capela. Nem ele a tem. Eu moro pertinho e deixo sempre a capela impecável. Nunca falta nada.
O engravatado cangalheiro parecia absorver cada palavra, o que incentivou Emília:
- É uma capela muito simples, mas as pessoas gostam dela para os velórios, porque é espaçosa e está sempre limpa e arejada... todos os dias a abro e deixo flores frescas. Ao longo do dia, vou deitando um olhinho, para não fazerem alguma tarantada...
Chegados à capela, Emília reparou que o caixão não era nada mau, o que indicava que o falecido seria gente de bem, que a sua família a saberia tratar com cortesia e delicadeza merecidas.
Assim que depositaram o corpo na capela, rodeado de escassos arranjos florais, uma carpete negra luxuosa e vários candelabros dourados, a atenção dos engravatados pareceu ser tragada pela terra. Emília bem puxou por assuntos interessantíssimos como quem decidiu fazer a capela e as dívidas que foram deixadas à paróquia, mas os cangalheiro pareciam ter conseguido livrar-se de uma carga imensa e estarem apressados para mais uma dezena de funerais...
Ficou só, ou melhor, só com o falecido, cuja cara não poderia ver porque deixaram o caixão fechado e não seria correto ir coscuvilhar. Sentou-se no "banco da viúva", o mais próximo da cabeceira do caixão e fez um ar de introspeção , porque de desgosto seria um exagero de mau gosto.
Passados escassos minutos, já erguia o olhar para verificar os altares. Todas as toalhas estavam imaculadamente brancas, à excesso de uma pétala de lírio, precisamente no altar-mor. Apressou-se a retirá-la antes que manchasse. Todos os arranjos mantinham a frescura do dia anterior, mas teriam que sair para dar espaço às flores do falecido. Retirou-os todos e substituiu o do altar-mor por um dos dois deixados pelo cangalheiro.
Sem mais nada que fazer, voltou ao "banco da viúva", armada da costumeira paciência. Os parentes tinham sempre algumas coisas a fazer antes de se instalarem para o velório. Nem tinha perguntado o nome do falecido... De qualquer maneira, agora já não se sabe o nome dos vizinhos todos como antigamente...
Como sempre, estes momentos prolongam-se dentro de nós e começam a parecer horas. Já tinha inspecionado todos os detalhes da capela. Examinar os detalhes do caixão e dos ornamentos deixados pela agência funerária não conseguia absorver o tédio da espera. A fome já começava a fazer alguns efeitos sobre o tédio reinante. Consultou o relógio pela segunda vez - 10.57. Poderia ir tomar uma cevada ao café ali ao lado... ninguém teria tempo de dar pela sua falta... até podia ver a porta da capela desde a esplanada. Era isso...
- Desculpe lá, mas vou ter que deixá-lo sozinho um bocadinho. Sabe, com estas fomes até podia cair para o lado e também não lhe fazia companhia nenhuma, não era? Daqui a um quarto de hora, já cá estou de novo para o velar...
Apressou-se até à esplanada e chamou o sr. Luís. Este estranhou que ficasse na esplanada, mas não disse nada. O silêncio não impediu que Emília lhe explicasse que havia um corpo na capela e que a família não tinha chegado ainda. Até estava um pouco ralada. O que é que o falecido pensaria?...
Engoliu sofregamente o pão com manteiga e a cevada quente, para voltar em passo ligeiro e animado até junto do caixão. Aquela gente ainda não tinha chegado...
- Sabe? Anda toda a gente com muito que fazer e ninguém está preparado para uma morte... Até há alguns desnaturados que continuam a fazer o que era suposto e pouco se importam com os defuntos. Se vão ao funeral, vão contrariados. Não quer dizer que os seus parentes sejam assim...
- A minha filha, por exemplo, já quase nunca cá vem. Telefona todas as semanas, claro, mas não pode cá vir porque tem um marido muito exigente, que quer tudo limpinho, a comida a horas. Além disso, tem duas crianças, que hão-de dar o seu trabalhinho...
- A mais velha já tem 14 anos. É uma idade complicada. O rapaz faz 10, em março próximo. Desde o batizado dele que não os vejo. Também não posso andar sempre a correr para lá, não é? Não quero incomodar e tenho as minhas coisinhas de que tratar, sabe?
- A gente está neste mundo a sacrificar-se toda a vida e depois fica sozinha... Eu sei que é como tem que ser, mas não é justo. Trabalha-se para os pais, para o marido, para os filhos... um dia cada um vai para seu lado e não temos mais para quem trabalhar...
- Eu cá, não paro. Ainda me falaram em ir para um lar, mas isso não é para mim. Faço a lidinha da casa, a da capela e assim ocupo os meus dias.
- Quando os meninos eram pequeninos, ainda cá vinham para os pais poderem ir à praia... Agora vão todos. A mais velha, se calhar, vai sozinha. Já terá namorado...
- O que eu gosto aqui é quando fazem casamentos, ou batizados. Comunhões, não há...
Entretanto, chegam os funcionários da agência funerária. Trazem cara de contrariados. Emília encara-os irritada:
- Então? A família não vem? Já são quase quatro da tarde e ainda não almocei.
Do meio da contrariedade, os funcionários conseguem rasgar um sorriso de desdém, para lhe comunicarem que se enganaram de capela. Este corpo vai para os Anjos. Andaram todo o dia à procura dele...
- Isto é coisa que se faça? Havia de estar toda a gente preocupada. E eu, aqui presa, com tanto que fazer...
Não teve tempo de acabar o resmungo. Em menos de nada o carro funerário arrancava com o corpo e todo o aparato.
