sexta-feira, 8 de maio de 2009

Realidade

Sempre que se cansava de ler ou simplesmente olhar para a lareira, ficava a fitá-la. Ela raramente lhe devolvia o olhar, mas quando o fazia valia por todas as vezes em que o seu olhar não lhe concedia encontro. Habituara-se a ler e àquela calma, desde que a encontrara. Os dias eram mais claros e serenos desde então. Ele lia, ela também ou bordava, ou se entregava a uma outra manualidade.
Ao olhá-la podia estar a desejar que ela lhe tocasse, ou simplesmente a regalar-se na sua presença. Ocasionalmente ela sorria-lhe, lembrando-lhe todas as intimidadades trocadas, todos os segredos soprados junto ao seu ouvido, todas as banalidades que eram só suas.
Sentia que ela lhe pertencia apenas a ele. Nunca se dirigia a mais ninguém, nem mesmo aos outros habitantes da casa.
Um mordomo com farda estranha entra, saúda e deixa-lhe alguns medicamentos. Ela não o olha, ignora-o. É só sua. Mesmo ele tem dificuldade em retirar os olhos dela para cumprimentar ou agradecer ao mordomo. Parecia que o incomodava perder alguns instantes daquela intimidade de silêncios e calmas. Ao fazê-lo mantém-se fito nela, enquanto ela borda ou descansa os olhos na lareira.
Como podia ter vivido antes de a conhecer? Como a conhecera? Há quanto tempo? Parecia que nunca existira antes de ela.
Às vezes, não resistia, saia da sua cadeira e ia encostar a barriga ao espaldar da cadeira dela. Raramente ela correspondia reclinando a cabeça até tocá-lo, roçando o carrapito impecável na sua camisola e deliciando-o com o toque. Por vezes mesmo, parecia incomodada ou incerta de o querer ali.
O que os unia era lago que ultrapassava as explicações ou descrições, como se as palavras e a lógica não os obrigassem, não os tolhessem. Roçagar de asas que libertava os pesos dos seus corpos e dos seus seres.
Passavam os dias naquela contemplação, sem mesmo a ansiedade do voltar à cama para se tocarem realmente. A existência satisfazia-os mutuamente. Eram uma realidade, apenas.
Quando o mordomo se demorava mais um pouco a contemplar o mobiliário decadente, as suas atenções desapareciam dele e voltavam a mergulhar um no outro, sem palavras, nem grandes eloquências ou actos.
Por vezes, ele perturbava-se pela ausência do tempo, mas bastava-lhe olhá-la para não sentir qualquer necessidade. Eram, simplesmente.
Volta e meia, o mordomo trazia um médico, o que o irritava profundamente. Que mania de querer cuidar dos outros. Ele estavam melhor do que alguma vez imaginara. Era jovem e robusto, apaixonado. Pode lá haver melhor saúde? Nessas ocasiões, optara por ignorá-los a ambos. Se se demoravam, sacudia-os e expulsava-os da sala.
Com o passar do tempo, a simples presença começou a não bastar. Queria lembrar-se da textura da pele dela, do ténue calor, do seu hálito, do toque dos lábios contra os seus. Isto começou a agitá-lo. Cada vez que ela não lhe retribuía o olhar começava a ansiar, a sentir-se só. Procurava o seu toque, mas raramente o encontrava. Sentia-se como um cão a quem já não se liga muito, por ser velho ou sujo.
Conforme este sentimento se foi instalando, começou a sentir-se inquieto. Já não havia momentos de contemplação, nem de cumplicidade. Uma pequena raiva foi crescendo, dilatando. Queria estar com ela e relembrar tudo, mas não conseguia. Parecia que se estava a abrir um fosso para o engolir.
De um salto decidiu agarrá-la e forçá-la se preciso fosse. Ela deixou-se agarrar, sem reacção. Não era isto que pretendia. Como podia ignorá-lo durante um abraço forte e sexuado. Procurou-lhe a boca e encontrou frio. O mesmo em toda a sua presença.
Perdeu-se de raiva e atirou-a para longe. Ela pareceu flutuar sem perder a verticalidade, indiferente. A raiva tomou-o e começou a despejá-la nos móveis, até que não se conteve e a agrediu, lançando-lhe todos os objectos que lhe viessem à mão. Ela permaneceu imóvel.
...
O mordomo entrou e tentou refreá-lo. Em vão. Foi lançado como um candeeiro de pé ou uma mesa de apoio. O médico estava lá e correu para lhe injectar algo no braço. Ainda conseguiu repeli-lo, mas um torpor instalou-se nos músculos, depois na vista, por fim, por tudo.
- Há quanto tempo não tinha um acesso de fúria, perguntou o médico.
- Há duas semanas, quando começamos o tratamento novo, respondeu.
...
As palavras ecoavam na sua cabeça encostada ao espaldar achado da cadeira...
...
- Temos que voltar à medicação anterior. Já se habituou a esta e não podemos aumentar a dose, sem o estudo de efeitos secundários, discorreu o médico - Era a última esperança de recuperação.
- Sr. Dr., nunca tivemos qualquer indício de recuperação. Apenas passou do quadro agressivo para um de apatia. Foi buscar uma segunda cadeira ao refeitório e ficava a olhar para ela.

Inspirado nas primeiras linhas de "Morella" de Edgar Alan Poe.

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