segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Teimosia

Ela enterrou os dentes na polpa escarlate da melancia, enquanto que o sol se punha e inundava todo o terreno de luz laranja-vermelho. As folhas verde claras iam-se tornando sombras negras, a água esverdeada do lago ia ficando avermelhada. Até a sua cara negra tinha um brilho vermelho e o alvo sorriso ficou laranja.

A despedida daquele sol de verão estava a enfeitiçá-la como o fazia a terra acobreada onde brincara na primeira infância. A diferença era esta ser apenas uma ilusão, enquanto que a outra era permanente até ao banho, ficando depois o banho sob a sua influência: as águas e as paredes da banheira tingiam-se do pó vermelho mágico das suas brincadeiras.

A alegria passada tornava-se agora nostalgia e saudade. Já não havia memória viva das brincadeiras, nenhuma água tingida, nenhuma mãe que a lavasse. Só havia velhas memórias, ossos envelhecidos e a certeza de muitas perdas.

O sentimento bom da inocência era apenas comparável à sensação de ter tido uma vida valiosa com batalhas ganhas e perdidas, que se somaram numa guerra quase ganha, ou melhor encaminhada para a vitória certeira, ainda que remota.

Os negros tinham já o direito a estudar na universidade, a escolher assento nos autocarros, a viver em bairros ricos, a ter bons empregos, a votar e a serem eleitos...

Infelizmente, quase nunca usavam esses direitos. Esse é o problema dos direitos que se instalaram na lei, mas ainda estão afastados do coração das pessoas.

É extraordinário como as nuvens brancas se tornam negras ao pôr-de-sol. Arranjam sempre forma de se tornarem evidentes. Num céu azul, parecem brancas, num céu vermelho vibrante, escolhem vestir-se de negro. Sempre o mesmo código de vestuário, nunca monótono. Conseguem sempre atear o fogo da nossa imaginação, fazendo-nos antecipar animais fabulosos, edifícios, objetos. Consideramo-nos sempre dignos de uma sova, quando nos atrevemos a desligar a imaginação e a pensá-las apenas como vapor de água. Algo como atirar ouro ao rio.

Na vida é precisamente o contrário, usar a imaginação é castigável severamente, como uma torpe inaptidão. Os sonhadores que fazem avançar o mundo, são incompreendidos, como ela o foi sempre. Raramente são reconhecidos, como ela nunca será. No entanto, há a sensação de uma vitória secreta que ninguém nos pode tirar.
in memoriam Matin Luther King

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